segunda-feira, 26 de março de 2007

Pegando no tranco

Certo dia um avião sobrevoou a Praça da Matriz logo pela manhã. Zuuuummmm! Era um bimotor Douglas "Havoc" A-20K da Força Aérea Brasileira. Tratava-se do coronel Ivan Bernardini Costa, que na ocasião ainda dava seus primeiros passos na FAB. Isto aconteceu em 1951, quando ele ainda era tenente-aviador.

Tinha que cumprir algumas horas de vôo e, com essa desculpa, veio a Tatuí e aproveitou para ver sua noiva (depois esposa). Desceu no “campo de aviação” de Tatuí. Um telefonema e logo alguns amigos lá estavam para recebê-lo, mas sua primeira parada foi na casa da noiva. Isso era mais importante que todo o resto.

Mais tarde tornou encontrar-se com os amigos, para colocar as coisas em dia. Informou que estava sendo obrigado a cumprir algumas horas de vôo, como exigência de sua carreira militar.

-Tenho que voar ainda algumas horas hoje, para atingir a meta necessária! – contou aos amigos Erasmo Peixoto e Hélio Reali.

Hélio Reali teve uma idéia:

- Vamos visitar o Liliu Vieira! Ele está lecionando em Mirandópolis! – disse Hélio.

- Isso mesmo. Daqui até lá serão algumas horas de viagem pra você somar na sua meta, Ivan! – reforçou Erasmo.

Imediatamente Ivan topou a sugestão. Porque não? Cumpriria sua meta junto com seus amigos e ainda faria uma visita para outro. Tomaram o táxi para ir ao aeroporto, ou campo de aviação, como era chamado pelos tatuianos.

O táxi era um belo Chevrolet “De Luxe” do Chico Arruda, conhecido chofer de praça da cidade. Avisaram aos familiares e foram ao avião.

O aeroporto de Tatuí consistia de um pequeno hangar e uma pista poeirenta. Hoje tem diversos hangares e sua pista é asfaltada, capaz de receber até jatos de tamanho médio.

Desceram do táxi e subiram no avião. Enquanto o pessoal que ficou em terra olhava, Ivan preparava-se para dar a partida no aparelho. A partida era feita com emprego de cartuchos carregados com pólvora, que explodiam em um compartimento próprio, dando o início de rotação ao motor.

BANG! Explodiu o primeiro cartucho, mas o motor praticamente não se moveu. A hélice estava imóvel.

Isso era coisa normal. Dificilmente o motor “pegaria” com o primeiro cartucho.

BANG! Mais um estouro e apenas um pequeno movimento na hélice.

Os “expectadores” que estavam em terra já achavam que não iria funcionar.

BANG! Um pequeno giro e parou.

No momento em que Ivan preparava-se para disparar outro cartucho, percebeu que o avião estava andando... devagar, mas já aumentando a velocidade. “Será o vento?” – pensou.

Colocou sua cabeça fora e olhou para trás. Havia uma multidão empurrando o avião, que a esta altura já estava com uma boa velocidade.

Chico Arruda, que liderava o empurrão do avião, deu um grito:

- Engate uma segunda! Engate uma segunda e dê um tranquinho que pega!

Cel. Ivan voou o mundo todo pela FAB, mas coisa assim só poderia ter acontecido em Tatuí!!!! ARRE!

A mirabolante viagem do caminhão porcadeiro

Helio Vieira foi um dos corretores de maior sucesso em Tatuí. Bem, se tudo que contava realmente se tratassem de negócios reais e concretizados, ele foi o maior corretor do mundo.

Antes de ser corretor fez um pouco de tudo. Na década de 60 lidava com suínos. Tinha alguns caminhões que transportava suínos, três F-600 com carroceria apropriada para transporte desses animais. Uma carga bastante mal-cheirosa, mas lucrativa. Certa ocasião encostou os caminhões na Praça da Santa e fotografou sua frota. Ele orgulhava-se dela.

Atualmente as atividades relacionadas à suinocultura modificaram-se bastante, transformando esse tipo de negócio. Para completar, os grandes centros produtores estão localizados nas proximidades de importantes frigoríficos, quase que eliminando os caminhões “porcadeiros” em nossa região.

Em determinada época, a carne suína estava em alta, principalmente devido ao controle sanitário entre fronteiras estaduais, buscando o controle da saúde dos rebanhos brasileiros.

Helio estava retornando do Paraná a Tatuí com um de seus caminhões carregado da mal-cheirosa carga. Ao chegar na ponte que liga o Paraná a São Paulo havia uma barreira de fiscalização que impediu que continuasse sua viagem. Devido a uma doença do animal, estavam proibidas as viagens entre os estados da Região Sul e São Paulo.

Helio tentou argumentar de todas as maneiras. Ele, bom de papo como era, pensou que conseguiria que lhe permitissem passar com seus porcos. Negativo! Não pode passar. Deveria retornar ao local de origem dos animais.

Aquilo ia transformar sua viagem em um grande prejuízo. Não poderia voltar, tinha que encontrar uma maneira. E encontrou. Fez um plano para passar pela fronteira.

Voltou até Sengés e alugou um ônibus de 40 lugares. Passou em um armazém e comprou 40 chapéus de palha e alguns metros de corda. Estacionou o ônibus perto do caminhão e quando entardeceu foi retirando os porcos, um a um, e colocando cada um deles amarrado no banco do ônibus, como que estivessem sentados. Comprou algumas roupas usadas em um bazar e vestiu os porcos que ficariam nas primeiras fileiras.

Ocupou todos os lugares com os porcos sentados, devidamente amarrados aos bancos, impossibilitados de sair. Nesse momento a noite já estava escura. Tudo estava preparado. Só faltavam os disfarces. Colocou um chapéu em cada um dos porcos e mandou o motorista partir.

O barulho dentro do ônibus era imenso, assim como o cheiro ruim que exalava do veículo.

Helio sentou-se na primeira fileira, junto com um de seus empregados. O caminhão seguia o ônibus, viajando vazio. Quando o ônibus chegou à barreira, um policial deu sinal para que este parasse no acostamento. Assim que parou, Helio desceu rapidamente e começou a conversar com o guarda, enchendo o tal de conversa para que não entrasse no veículo para inspecionar.

- Pois é, seu guarda, é uma excursão de velhinhos de Tatuí e estamos voltando... tá todo mundo cansado! - explicava Helio.

O policial ia entrando no ônibus, estava já no primeiro degrau. Helio colocando-se a frente do mesmo, argumentou:

- Tá todo mundo dormindo! – disse Helio ao policial – Escute só como roncam! – complementou.

Assim, vendo aqueles passageiros todos dormindo a sono profundo, roncando como nunca, resolveu deixar o ônibus seguir adiante. Não iria perturbar o sono daqueles que pensava ser alguns velhinhos.

Arre! Que porcaria! Só faltava essa!

Meio século de encrencas!!!

Motivo para brigar não é difícil encontrar. Concursos constituem sempre uma fonte de controvérsias. Raramente as decisões são unânimes e, contando com interpretações pessoais disto ou daquilo, pontos de vista podem ser diferentes.

Contudo, muitos problemas graves são logo esquecidos, outros nem tão graves, podem ser sempre motivos de discórdia, como o grande impasse ocorrido na eleição da “criança mais linda de Tatuí”, em 1951.

Concorreram, dentre outros bebês, o bebê Mário Pavanelli e o bebê Mário Luís “Caresia”. As controvérsias arrastaram-se por toda a segunda metade do século XX, chegando até os dias de hoje, sem solução.

O fato contestado merece ser relembrado. A eleição da criança mais linda, promovida foi vencida pelo bebê Marinho Pavanelli, um resultado contestado pelo avô materno do bebê Caresia, que tinha convicção de que seu neto foi o vencedor... o bebê Caresia tinha pernas roliças, bochechudo, pele cor-de-rosa... sem dúvidas, poderia mesmo ser o vencedor.

Entretanto, os juízes do concurso escolheram o bebê Pavanelli, fato que nunca foi aceito pelos familiares do bebê Caresia, que suspeitavam de alguma espécie de lobby no Posto de Puericultura, influenciando a comissão julgadora e alterando o resultado final.

A insatisfação do velho Caresia foi tão intensa que acabou por desentender-se com o organizador e juiz presidente do tal concurso, o saudoso Dr. Almiro, que foi, inclusive, meu pediatra. Uns dias após a divulgação do resultado do concurso, o Dr. Almiro passou em frente ao antigo Bar e Restaurante 80, na Praça da Matriz e, quando o velho Caresia percebeu a presença do médico, chamou e disse:

- Ô Dr. Almiro, vai entender de robustez infantil na pqp...! Proferiu o tal palavrão, um dos muitos de seu imenso repertório. Claro que o Dr. Almiro, homem educado e elegante, não respondeu e afastou-se do lugar.

Mas o velho Caresia, estava todo satisfeito e completou: - Ah, dei uma indireta no Dr. Almiro!

Indireta? Uau, imagine só como seria a direta!!!

Como conseqüência desses acontecimentos e devido a grande capacidade do Caresia em dar "indiretas" criou-se até mesmo uma coluna no jornal “O Progresso de Tatuí”, chamada de “As diretas do Caresia”, onde ele destilava seus comentários a respeito dos assuntos tatuianos...

Há poucos meses, “provoquei” todos os personagens deste caso, incluindo a mãe do bebê Caresia, que reafirmou sua opinião, de que a eleição teve seu resultado alterado por forças ocultas.

Em todo caso, Marinho Pavanelli ainda guarda, orgulhoso, seu diploma de “O Bebê Mais Lindo de Tatuí”.